Marcando os 75 anos desde o início da 2ª Guerra Mundial, o Conselho Mundial da Paz (CMP) e organizações amigas reuniram-se em Praga, República Tcheca, neste sábado (15) e domingo (16), lembrando a data da ocupação nazista do país.

Socorro Gomes, presidenta do CMP, reafirmou a necessidade de união entre os movimentos de paz mundiais na luta anti-imperialista e no esforço para fortalecer as lições da história contra a repetição da guerra.



Por Moara Crivelente, de Praga para o Vermelho

Socorro Gomes, presidenta do CMP, e Iraklis Tsavdaridis, secretário Executivo do conselho, prestam homenagem às vítimas da vila de Lídice, na República Tcheca, que foi completamente arrasada pela ocupação nazista, em 1942.

Organizações associadas, membros ou amigas do CMP na Alemanha, Dinamarca, Portugal, Grécia, Áustria, República Tcheca e Brasil lembraram a ocupação imperialista do território tcheco, no evento realizado pelo movimento nacional Soldados contra a Guerra, o Movimento Tcheco pela Paz e membros do Partido Comunista do país.

Com o Acordo de Munique - ou “Traição de Munique”, como chamado pelos tchecos, já que se trata de um acordo assinado entre a Alemanha de Adolf Hitler, Itália e os aliados da então Tchecoslováquia, França e Reino Unido, sem representantes tchecos - a separação do país foi arbitrária, em 1938.

No ano seguinte, após um ultimato de Hitler ao presidente tcheco, Emil Hácha, a República Tcheca foi ocupada, declarada um “protetorado” da Boêmia e Morávia, e enfrentou seis anos de terror, invasão e massacres, sob a “administração” nazista. Socorro Gomes, também presidenta do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebrapaz), enfatiza:

Adolf Hitler alegou, para a determinação da secessão da Eslováquia e a invasão e dominação da República Tcheca, o restabelecimento da “ordem”, já que os tchecoslovacos estariam submergindo no “caos dos conflitos étnicos”. Ora, camaradas, este é um pretexto ainda comum nos dias de hoje, em que o imperialismo camufla, em discursos pseudo-universalistas, os seus reais impulsos: a subjugação daqueles que se opõem aos seus desígnios e que concebem as relações internacionais em outro plano que não o da dominação dos mais fortes.

Mas a resistência também é um ponto fundamental desta história, lembra Socorro Gomes. “Apesar da brutalidade e da ameaça de extermínio que se enfrentava, a rede Úvod (Comitê Central de Resistência da Pátria) e o Partido Comunista Tcheco foram cruciais contra o domínio e o avanço nazista, com o chamamento à unidade de ação contra todos os grupos fascistas.”

Entretanto, a resposta à resistência foi brutal e impiedosa. Logo após a chamada operação Antropoide, que consistia na eliminação do administrador nazista do “protetorado”, em 1942, as tropas alemãs foram ordenadas a “arrasar completamente” duas vilas tchecas, Lidice e Lezáky, onde os homens deveriam ser executados e as mulheres e crianças enviadas a campos de concentração, onde muitas foram mortas em câmaras de gás.
Para lembrar esta tragédia e prestar homenagens às vítimas, os movimentos e organizações pela paz também visitaram Lidice, onde uma nova vila foi construída com o apoio de redes de solidariedade na Europa, ao lado de onde ficava a anterior, mas que não foi reconstruída, para tornar-se um local de memória, com monumentos e o maior jardim de rosas do continente.

Evitar a repetição da devastação

Nos debates durante a reunião, representantes tchecos e os demais enfatizaram a necessidade de fortalecimento da solidariedade internacional na luta anti-imperialista e para angariar maior apoio contra a guerra, reafirmando o papel da memória histórica neste esforço. Assim, relembrar o papel da resistência também serve para contrapor a ideia cunhada, de forma profundamente destrutiva, de que as relações de poder e subjugação são naturais.

Atualmente, disse Socorro, “reagimos à militarização do planeta. Apesar da obviedade da tragédia da guerra, continuamos lutando por um mundo de progresso, cooperação e solidariedade internacional, diretamente contrário e incompatível com a persistente ordem capitalista, novamente em crise profunda, mas que conta com defensores ferrenhos que estão dispostos a pagar qualquer preço para manter seus privilégios”.

Os representantes das organizações na reunião abordaram também os reflexos atuais do imperialismo, as tensões em escalada e a reafirmação do fascismo, reemergindo em cenários como a Ucrânia e a Venezuela, e da ingerência estrangeira, como na Síria, agravando situações de conflito e promovendo a guerra.
Entretanto, o progresso humano e a justiça, assim como a construção de um plano de paz e de cooperação, “continuam sendo as nossas metas principais, o nosso foco de luta para corresponder à história, para construir alternativas contrárias às relações de poder que subjugaram os povos por tempo demais”, concluiu Socorro.