José Goulão, jornalista e membro da Presidência do CPPC


Estados Unidos,Reino Unido, França, Alemanha, Turquia, Itália, Arábia Saudita e Qatar são os países que estão por detrás do ataque “cirúrgico”que meios militares norte-americanos e da NATO concentrados no Mediterrâneo vão realizar contra a Síria independentemente de existirem ou não mandato da ONU e provas de utilização de armas químicas pelo regime de Damasco.

 


A nova agressão militar no Médio Oriente, comandada desta feita por um presidente dos Estados Unidos que em tempos se opôs à invasão do Iraque, terá como primeiro objectivo destruir instalações e instituições militares da Síria onde se coordena a ofensiva em curso do exército sírio para “desimpedir Damasco”. O ataque das tropas de Assad realizado no passado dia 21 desmantelou grupos das forças rebelde sao serviço da NATO que se mantinham nos subúrbios de Damasco e a reacção internacional que se lhe seguiu tem como primeira meta travar a progressão da ofensiva do regime, que debilitaria os grupos armados de mercenários e radicais islâmicos de uma forma eventualmente definitiva. O ataque internacional comandado pela NATO orientar-se-á, deste modo, na primeira fase, por manter a guerra como aparelho militar de Damasco mais debilitado.

 


Os Estados Unidos planeiam lançar mísseis de cruzeiro a partir de navios concentrados no Mediterrâneo contra cerca de 50 alvos considerados estratégicos pela espionagem norte-americana e israelita. A operação poderá incluir ataques aéreos com mísseis teleguiados lançados do exterior do espaço aéreo sírio. Os Estados Unidos têm, há muito,caças F16 estacionados na Jordânia.


A questão das armas químicas passou para segundo plano. Os inspectores da ONU,cuja presença foi pedida pelo regime de Assad – o que tem passado despercebido na imprensa ocidental – ainda não chegaram a conclusões sobre a utilização de engenhos desse tipo e também sobre quem a eles terá eventualmente recorrido. A Síria, que não é signatária da Convenção sobre não utilização de armas químicas,tal como Israel, possui um arsenal químico, do mesmo modo que o seu vizinho e inimigo, dotado também com bombas atómicas. Os grupos radicais islâmicos estão igualmente equipados com engenhos químicos, como revelaram, por exemplo, num vídeo que puseram a circular para ameaçar a minoria alauita, a que pertence a casta do regime. O exército sírio descobriu recentemente esconderijos de armas químicas da oposição, juntamente com antídotos e máscaras de protecção, equipamento fornecido por Estados Unidos, Qatar, Arábia Saudita e Holanda. Em 29 de Maio passado a Turquia detectou o transporte de gás sarin para os rebeldes ao serviço da NATO através da sua fronteira com a Síria.


O presidente dos Estados Unidos diz que tem “poucas dúvidas” sobre o uso de armas químicas pelo regime de Damasco, apesar de os inspectores se confessarem ainda incapazes de detectar a origem de eventuais armas.Os seus vice-presidente e secretário de Estado não têm quaisquer dúvidas, tal como o presidente francês, o socialista Hollande, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o também socialista e pró-israelita Laurent Fabius. Além disso, Obama considera que as inspecções da ONU se realizam “demasiado tarde para ser credíveis”. Ficou assim traçado o cenário de argumentos para o ataque.


A agressão internacional contra a Síria será realizada à revelia da ONU, tal como na Líbia e na Ex-Jugoslávia, designadamente no Kosovo. A primeira reunião do Conselho de Segurança foi inconclusiva. Os membros da NATO no Conselho manifestaram as suas certezas mas ficaram sem resposta quando o representante russo, Serguei Lavrov, lhes apresentou fotos tomadas por satélite do lançamento de dois obuses das zonas rebeldes de Jobar e entre Arbin e Zamalka tendo como alvo aárea onde foi detectado o suposto ataque químico governamental. A hora dos disparos, 1 e 35 de 21 de Agosto, coincide com a do “massacre”. Tal “massacre”, além de ter permitido a campanha de propaganda pela intervenção internacional contra o regime,destruiu grupos armados rivais da Brigada do islão, a organização terrorista islâmica que domina a zona dos disparos. A imprensa ocidental reconhece que os rebeldes estão eles próprios envolvidos em guerras internas – a exemplo do que acontece com as milícias na Líbia – um conflito do qual a Al-Qaida parece emergir como um dos vencedores.


O apoio de grupos islâmicos, alguns deles nas listas norte-americana e europeia de “organizações terroristas”, é uma vertente da “guerra secreta” que tem envolvido a NATO directamente no conflito sírio. Não é apenas a Turquia a base de assalto para injecção de grupos armados estrangeiros no território sírio. O mesmo acontece na Jordânia, onde segundo o diário francês Le Figaro dois grupos de300 homens, “certamente apoiados por comandos israelitas”, se infiltraram já em Agosto na Síria. O jornal afirma que os combatentes são oriundos do Afeganistão, Bósnia, Chechénia, Líbia e outras regiões islâmicas, abastecidos com armas sobretudo croatas que circulam numa rede patrocinada pela CIA. O diário francês tem dúvidas mas admite que os grupos poderiam ter transportado igualmente engenhos químicos, uma vez que a zona de penetração é controlada pelos rebeldes. Na Jordânia estão aquartelados mil membros das Forças Armadas dos Estados Unidos ocupados com o treino dos mercenários radicais islâmicos para infiltrar no território sírio.


As fotos exibidas por Lavrov no Conselho de Segurança não permitem deduzir se as ogivas dos obuses lançados pela Brigada do Islão eram químicas, mas os acontecimento permitiria lançar dúvidas se os interlocutores estivessem abertos a ter dúvidas. Apesar de tudo o Conselho de Segurança não tomou qualquer decisão e o Reino Unido prepara-se agora para alterar a tónica do projecto de resolução trocando a questão das armas químicas pela necessidade de “defender os civis” e dissuadir o uso de armas químicas. Um dos exemplos mais recentes das operações da NATO para defender civis foi a conquista de Tripoli, na Líbia, que provocou a morte de pelo menos 40 mil pessoas.


As operações de guerra a assumir por uma nova coligação criada no interior da NATO foram discutidas entre 25 e 27 de Agosto em Amã, na Jordânia, pelos chefes dos Estados Maiores dos Estados Unidos, Reino Unido, França,Turquia, Itália, Alemanha, Qatar e Arábia Saudita. Daí saiu uma escala de opções a tomar consoante os resultados pretendidos em cada fase, começando pelos bombardeamentos com mísseis de cruzeiro Tomahwak contra cerca de 50 objectivos estratégicos políticos e militares do regime sírio. A NATO pretende enfraquecer o poder militar e a capacidade de decisão militar para travar a ofensiva em curso – o que não significa derrubar imediatamente Assad. As operações serão efectuadas sob o comando do general Lloyd Austin III, no âmbito da Quinta Esquadra norte-americana, que tem base no Bahrein, o país onde a Primavera Árabe foi travada por chacinas realizadas por tropas sauditas a pedido de Washington. As operações seguintes serão bombardeamentos aéreos, a definição de uma zona de exclusão para aviões sírios, o estabelecimento de zonas tampão,eventualmente iniciando a fragmentação étnica e sectária do país e, finalmente, uma invasão terrestre.


A Rússia já revelou que apoiará a Síria mas não se envolverá no conflito por não querer estar na origem da terceira guerra mundial. O Irão admite que poderá responder, não em direcção á Síria mas a Israel.


Os países da NATO continuam reticentes no envolvimento directo das suas tropas na invasão por terra, que assim poderá acontecer no Outono sob comando saudita e eventualmente sob a bandeira da Liga Árabe, presidida actualmente pelo Qatar, que comprou o lugar à Palestina - a quem competia a presidência rotativa.