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José Goulão - jornalista e membro da Presidência do CPPC
 
Depois de derrotado pelo Parlamento britânico, de maioria conservadora, o presidente dos Estados Unidos insiste na necessidade de um ataque militar contra a Síria sem mandato da ONU sujeitando-se a ter como aliados a autocracia turca, as ditaduras do Golfo e Israel, tendo ainda em conta as hesitações francesas.
 
Os planos de ataque de Barack Obama e do Pentágono contra a Síria esta sexta-feira foram perturbados pela decisão da Câmara dos Comuns britânica de não dar luz verde à participação do Reino Unido, onde a maioria dos deputados consideraram que, além de não haver mandato da ONU não existiam provas suficientes da utilização de armas químicas pelo exército de Damasco no passado dia 21. A posição britânica provocou um a grande desilusão na Administração democrática da Casa Branca, onde Obama e o seu governo têm ainda que contar com a oposição de poderosos grupos de membros da Câmara dos Representantes – republicanos e do seu próprio partido – que exigem ter conhecimento prévio da decisão sobre uma operação militar.
 
Apesar destes condicionalismos, Obama continua na disposição de actuar militarmente contra Damasco, ainda que a solo, com base em alegadas provas de uso de armas químicas pelo exército sírio que lhe teriam sido fornecidas pelos seus serviços de espionagem, independentemente das opiniões dos inspectores da ONU no terreno. Outro dos elementos em que a Administração Obama diz fundamentar-se é a suposta intercepção pelos serviços de espionagem de Israel de supostas conversações entre oficiais sírios que participavam nos ataques de 21 de Agosto.
 
“As provas devem anteceder as decisões, nunca devem ser as decisões a anteceder as provas”, declarou o dirigente do Partido Trabalhista britânico, Ed Milliband, perante a estratégia que o primeiro ministro David Cameron tentou fazer passar, sem êxito, na Câmara dos Comuns. O próprio Cameron confessou, ao declarar que agirá em conformidade com a posição do Parlamento, que não tem provas “cem por cento seguras” do recurso de Damasco a armas químicas.
 
O secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu mais alguns dias aos Estados Unidos antes de lançar qualquer ofensiva uma vez que os inspectores apenas poderão apresentar resultados a seguir ao fim de semana, segundo disse.
 
Obama, em tempos contemplado com o Nobel da Paz, parece incapaz de recuar numa estratégia militarista em que se envolveu contando desde logo com o habitual aliado britânico e permitindo que as linhas gerais da operação fossem do conhecimento de todo o mundo. O presidente norte.-americano está agora na contingência de proceder a um ataque contra uma ditadura de base xiita com uma coligação de ditaduras com base sunita.
 
Em França, o socialista Hollande, embora mantenha a tónica belicista e as “certezas” sobre as armas químicas do governo sírio, refaz contas depois da decisão do Parlamento britânico, conhecendo a enorme impopularidade que reina no seu país sobre uma eventual guerra contra Damasco, sobretudo depois dos escândalos e fracassos de anteriores intervenções externas.
 
Das “grandes coligações” dos tempos da primeira guerra no Iraque restam agora como aliados dos Estados Unidos de Obama a autocracia turca de Erdogan, as ditadura do Golfo como a Arábia Saudita, o Qatar e o Bahrein, e o regime confessional e segregacionista de Israel.
 
O presidente dos Estados Unidos mostra, deste modo, que não olha a aliados para conseguir o objectivo de derrubar o regime de Assad, com ou sem mandato da ONU, com ou sem provas do uso de armas químicas, uma operação que se integra na estratégia global israelo-norte-americana, com apoiodas ditaduras sunitas, para redesenhar o mapa do Médio Oriente segundo fronteiras étnicas e sectárias.m Lisboa. Novembro 2010